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	<title>Opinião &#8211; Manguinhos On-line</title>
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	<description>Jornalismo comunitário feito em Manguinhos</description>
	<lastBuildDate>Mon, 13 Jul 2026 09:19:07 +0000</lastBuildDate>
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		<title>Fim da escala 6&#215;1: por que a jornada precisa mudar</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Adriano Rodrigues]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 28 Apr 2026 18:00:18 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos humanos]]></category>
		<category><![CDATA[Direitos e assistência]]></category>
		<category><![CDATA[Opinião]]></category>
		<category><![CDATA[direitos trabalhistas]]></category>
		<category><![CDATA[escala 6x1]]></category>
		<category><![CDATA[Fim da escala 6x1]]></category>
		<category><![CDATA[Jornada de trabalho]]></category>
		<category><![CDATA[Manguinhos]]></category>
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					<description><![CDATA[Posicionamento editorial do Manguinhos On-line defende que descanso não é privilégio. É direito. Em territórios populares, a rotina de quem trabalha seis dias por semana também inclui transporte lotado, cuidado com a casa, baixos salários e pouco tempo para viver.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p class="PDq2pG_selectionAnchorContainer" data-start="1064" data-end="1298">Trabalhar seis dias e viver só um não dá conta da vida. Essa é a posição do <strong data-start="1140" data-end="1162">Manguinhos On-line</strong> diante do debate nacional sobre o fim da escala 6&#215;1, modelo em que o trabalhador atua seis dias na semana e tem apenas um dia de folga.</p>
<p data-start="1300" data-end="1765">A defesa da redução da jornada não é apenas uma pauta trabalhista. É uma discussão sobre saúde, tempo, família, transporte, cuidado, presença no território e dignidade. Para quem mora em favelas e periferias, a jornada não começa quando o expediente inicia. Começa antes: no ponto de ônibus, no trem lotado, no medo do caminho, na espera pelo transporte, na marmita feita às pressas, no filho que precisa ir para a escola, na casa que precisa continuar funcionando.</p>
<p data-start="1767" data-end="2195">A Constituição brasileira já limita a jornada normal a oito horas diárias e 44 horas semanais, além de garantir repouso semanal remunerado, preferencialmente aos domingos. Mas a existência formal de um dia de descanso não significa, na prática, tempo suficiente para recuperar o corpo, cuidar da saúde, conviver com a família, estudar, circular pela cidade e participar da vida comunitária.</p>
<h2 data-section-id="1gbrypw" data-start="2197" data-end="2223">O que está em discussão</h2>
<p data-start="2225" data-end="2652">O debate sobre a escala 6&#215;1 avançou no Congresso Nacional. Em maio de 2026, a Câmara dos Deputados aprovou, em dois turnos, a PEC 221/2019, que estabelece jornada de 40 horas semanais, em cinco dias de trabalho e dois de descanso. A proposta prevê transição, manutenção dos salários e regras específicas para algumas carreiras. No segundo turno, foram 461 votos favoráveis e 19 contrários.</p>
<p data-start="2654" data-end="2916">A proposta ainda não está em vigor. Após a aprovação na Câmara, o texto seguiu para o Senado. O presidente da Casa informou que a PEC não iria diretamente ao plenário e deveria passar por comissões antes de eventual votação.</p>
<p data-start="2918" data-end="3156">Ou seja: o fim da escala 6&#215;1 ainda depende de tramitação. Mas o debate já deixou de ser uma conversa restrita a sindicatos, partidos ou especialistas. Virou tema de rua, de trabalho, de família, de comércio, de transporte e de comunidade.</p>
<p data-start="3158" data-end="3450">Pesquisa Datafolha divulgada em março de 2026 mostrou que <strong data-start="3216" data-end="3307">71% dos brasileiros defendiam a redução do número máximo de dias trabalhados por semana</strong>. No fim de 2024, esse percentual era de 64%. O crescimento mostra que a pauta ganhou força na sociedade.</p>
<h2 data-section-id="ys763m" data-start="3452" data-end="3474">Descanso não é luxo</h2>
<p data-start="3476" data-end="3578">O descanso não pode ser tratado como prêmio para quem “merece”. Descanso é condição mínima para viver.</p>
<p data-start="3580" data-end="3906">Quem trabalha seis dias por semana costuma usar o único dia de folga para resolver tudo aquilo que a semana de trabalho impede: lavar roupa, limpar casa, fazer compras, ir ao médico, acompanhar filhos, visitar familiares, resolver documentos, pagar contas, estudar, descansar e tentar recuperar o corpo para trabalhar de novo.</p>
<p data-start="3908" data-end="3971">Isso não é tempo livre. É sobrevivência comprimida em 24 horas.</p>
<p data-start="3973" data-end="4259">A Lei nº 605/1949 reconhece o direito ao repouso semanal remunerado de 24 horas consecutivas. A CLT também prevê intervalo mínimo de 11 horas entre duas jornadas. Esses direitos existem porque o corpo humano tem limite. O trabalhador não é máquina.</p>
<h2 data-section-id="n1ug3" data-start="4261" data-end="4294">Saúde também entra nessa conta</h2>
<p data-start="4296" data-end="4399">A discussão sobre jornada precisa ser feita junto com a discussão sobre saúde. Trabalhar demais adoece.</p>
<p data-start="4401" data-end="4758">A Organização Mundial da Saúde e a Organização Internacional do Trabalho estimaram que longas jornadas estiveram associadas a <strong data-start="4527" data-end="4589">745 mil mortes por AVC e doença cardíaca isquêmica em 2016</strong>. O estudo considerou os efeitos de trabalhar 55 horas ou mais por semana e apontou aumento de 29% nessas mortes em relação a 2000.</p>
<p data-start="4760" data-end="5136">No Brasil, o adoecimento mental relacionado ao trabalho também vem chamando atenção. Segundo o Ministério da Previdência Social, em 2025 foram concedidos <strong data-start="4914" data-end="5006">546.254 benefícios por incapacidade temporária por transtornos mentais e comportamentais</strong>, alta de 15,66% em relação a 2024. O Rio de Janeiro registrou 41.997 benefícios desse tipo.</p>
<p data-start="5138" data-end="5447">É evidente que nem todo adoecimento mental tem uma única causa. Mas é impossível falar de ansiedade, depressão, estresse e exaustão sem olhar para a organização do trabalho, a pressão por produtividade, os baixos salários, a insegurança no emprego, o transporte precário e a falta de tempo real para descanso.</p>
<h2 data-section-id="83fpzh" data-start="5449" data-end="5497">Na favela, o cansaço começa antes do trabalho</h2>
<p data-start="5499" data-end="5613">Para muitos moradores de Manguinhos e de outras favelas, a jornada não se resume às horas registradas no contrato.</p>
<p data-start="5615" data-end="5849">Há o tempo de deslocamento. Há a espera pelo ônibus. Há o trem lotado. Há a volta tarde. Há o medo no caminho. Há o salário que nem sempre acompanha o custo da cidade. Há a responsabilidade doméstica que continua depois do expediente.</p>
<p data-start="5851" data-end="6108">O Censo 2022 mostrou que <strong data-start="5876" data-end="5960">9,3 milhões de pessoas no Brasil se deslocavam para trabalhar em outro município</strong>, o equivalente a 10,7% do total analisado; 7,9 milhões faziam esse deslocamento três dias ou mais por semana.</p>
<p data-start="6110" data-end="6501">No Rio de Janeiro, onde a mobilidade urbana é desigual, morar longe das áreas de emprego significa perder horas da vida em deslocamentos. Por isso, quando se fala em escala 6&#215;1, não estamos falando apenas de seis dias de trabalho. Estamos falando de seis dias de trabalho somados a seis dias de transporte, seis dias de cansaço acumulado e um único dia para tentar dar conta de todo o resto.</p>
<h2 data-section-id="1pf0266" data-start="6503" data-end="6543">A sobrecarga pesa mais sobre mulheres</h2>
<p data-start="6545" data-end="6579">O debate também tem gênero e raça.</p>
<p data-start="6581" data-end="6976">Segundo o IBGE, em 2022 as mulheres dedicavam, em média, <strong data-start="6638" data-end="6661">21,3 horas semanais</strong> aos afazeres domésticos e ao cuidado de pessoas, enquanto os homens dedicavam <strong data-start="6740" data-end="6754">11,7 horas</strong>. Entre pessoas ocupadas, as mulheres ainda dedicavam 6,8 horas a mais que os homens a essas atividades. Mulheres pretas apresentavam a maior taxa de realização de afazeres domésticos.</p>
<p data-start="6978" data-end="7180">Isso significa que, para muitas trabalhadoras, o fim do expediente não representa descanso. Representa o início de outra jornada: cuidar da casa, dos filhos, dos idosos, da comida, da roupa, da família.</p>
<p data-start="7182" data-end="7386">Quando uma mulher trabalha em escala 6&#215;1, especialmente se mora em território popular e depende de transporte público, o único dia de folga muitas vezes não é descanso. É o dia de colocar a vida em ordem.</p>
<h2 data-section-id="1rcp1rg" data-start="7388" data-end="7441">O país trabalha muito, mas nem sempre trabalha bem</h2>
<p data-start="7443" data-end="7745">O Brasil tinha <strong data-start="7458" data-end="7501">103 milhões de pessoas ocupadas em 2025</strong>, recorde da série histórica da PNAD Contínua. Ao mesmo tempo, a taxa de informalidade era de 38,1%, o que mostra que uma parte grande da população trabalha sem a proteção completa de direitos trabalhistas.</p>
<p data-start="7747" data-end="8125">Esse dado é importante porque o debate sobre a escala 6&#215;1 não deve ser usado para dividir trabalhadores formais e informais. Pelo contrário. A luta por redução da jornada precisa andar junto com a defesa de carteira assinada, renda digna, proteção previdenciária, fiscalização trabalhista, combate à pejotização fraudulenta e valorização de quem sustenta a cidade todos os dias.</p>
<p data-start="8127" data-end="8428">Também é preciso olhar para novas formas de exploração. Em 2024, o Brasil tinha 1,7 milhão de trabalhadores por plataformas digitais e aplicativos, segundo o IBGE. Esses trabalhadores tinham, em média, jornada habitual 5,5 horas maior que a dos demais ocupados.</p>
<p data-start="8430" data-end="8519">A escala 6&#215;1 é uma parte do problema. A precarização do tempo de vida é o problema maior.</p>
<h2 data-section-id="if60o7" data-start="8521" data-end="8567">Reduzir jornada não é acabar com o trabalho</h2>
<p data-start="8569" data-end="8682">Defender o fim da escala 6&#215;1 não é defender menos responsabilidade. É defender uma organização social mais justa.</p>
<p data-start="8684" data-end="8919">Trabalhadores querem trabalhar. Mas querem também descansar, estudar, cuidar da saúde, ver os filhos crescerem, visitar a família, participar da comunidade, viver relações afetivas, circular pela cidade e existir para além do trabalho.</p>
<p data-start="8921" data-end="9062">A pergunta central é simples: uma sociedade deve organizar a vida em torno do trabalho ou organizar o trabalho para que a vida seja possível?</p>
<p data-start="9064" data-end="9291">Para o Manguinhos On-line, a resposta é clara. O trabalho é fundamental, mas não pode engolir tudo. Nenhuma pessoa deve ser reduzida à função que exerce, ao uniforme que veste, ao crachá que carrega ou à meta que precisa bater.</p>
<h2 data-section-id="1bislos" data-start="9293" data-end="9352">O comércio, os serviços e a cidade também precisam mudar</h2>
<p data-start="9354" data-end="9593">Grande parte dos trabalhadores em escala 6&#215;1 está em setores essenciais para o funcionamento cotidiano da cidade: comércio, supermercados, farmácias, bares, restaurantes, limpeza, segurança, transporte, telemarketing, hotelaria e serviços.</p>
<p data-start="9595" data-end="9722">Essas áreas não podem simplesmente parar. Mas também não podem continuar funcionando às custas do adoecimento de quem trabalha.</p>
<p data-start="9724" data-end="9931">O desafio é reorganizar escalas, contratar mais, distribuir melhor jornadas, fiscalizar abusos e garantir que setores que funcionam todos os dias não dependam da exaustão permanente dos mesmos trabalhadores.</p>
<p data-start="9933" data-end="10025">Se a cidade precisa funcionar, ela precisa funcionar com dignidade para quem a mantém de pé.</p>
<h2 data-section-id="xgqu8f" data-start="10027" data-end="10067">A favela também quer tempo para viver</h2>
<p data-start="10069" data-end="10159">A frase que guia nosso posicionamento é direta: <strong data-start="10117" data-end="10158">a favela também quer tempo para viver</strong>.</p>
<p data-start="10161" data-end="10182">Tempo para descansar.</p>
<p data-start="10184" data-end="10211">Tempo para cuidar da saúde.</p>
<p data-start="10213" data-end="10232">Tempo para estudar.</p>
<p data-start="10234" data-end="10266">Tempo para acompanhar os filhos.</p>
<p data-start="10268" data-end="10299">Tempo para estar com a família.</p>
<p data-start="10301" data-end="10335">Tempo para circular no território.</p>
<p data-start="10337" data-end="10373">Tempo para participar da comunidade.</p>
<p data-start="10375" data-end="10401">Tempo para fazer política.</p>
<p data-start="10403" data-end="10453">Tempo para cultura, lazer, fé, amizade e silêncio.</p>
<p data-start="10455" data-end="10503">Tempo livre não é detalhe. É parte da cidadania.</p>
<p data-start="10505" data-end="10795">Quando trabalhadores de territórios populares vivem presos a jornadas longas, deslocamentos demorados e um único dia de folga, a democracia também perde. Porque participação social exige tempo. Formação política exige tempo. Cuidado coletivo exige tempo. Presença na comunidade exige tempo.</p>
<h2 data-section-id="1pj5ge1" data-start="10797" data-end="10820">Nosso posicionamento</h2>
<p data-start="10822" data-end="10972">O Manguinhos On-line se posiciona <strong data-start="10856" data-end="10882">pelo fim da escala 6&#215;1</strong>, pela redução da jornada sem redução salarial e pela ampliação dos direitos trabalhistas.</p>
<p data-start="10974" data-end="11261">Defendemos que o descanso seja tratado como direito social, não como privilégio. Defendemos que a vida do trabalhador tenha valor para além da produtividade. Defendemos que políticas públicas, empresas e parlamentares reconheçam que o tempo de quem trabalha também é um campo de disputa.</p>
<p data-start="11263" data-end="11483">A escala 6&#215;1 rouba descanso, saúde, convivência e tempo de vida. E quem sustenta a cidade funcionando também precisa dormir melhor, cuidar de si, estar com a família, circular no território e viver para além do trabalho.</p>
<p data-start="11485" data-end="11506">Descanso não é favor.</p>
<p data-start="11508" data-end="11532">Descanso não é fraqueza.</p>
<p data-start="11534" data-end="11554">Descanso não é luxo.</p>
<p data-start="11556" data-end="11579"><strong data-start="11556" data-end="11579">Descanso é direito.</strong></p>
<p data-start="11581" data-end="11608" data-is-last-node="" data-is-only-node=""><strong data-start="11581" data-end="11608" data-is-last-node="">Pelo fim da escala 6&#215;1.</strong></p>
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		<title>EUA classificam PCC e CV como terroristas; entenda os riscos</title>
		<link>https://manguinhosonline.com.br/eua-classificam-pcc-e-cv-como-terroristas-entenda-os-riscos/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Isabella Marques]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 01 Apr 2026 19:00:18 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Direitos humanos]]></category>
		<category><![CDATA[Opinião]]></category>
		<category><![CDATA[Segurança pública]]></category>
		<category><![CDATA[Comando Vermelho]]></category>
		<category><![CDATA[Estados Unidos]]></category>
		<category><![CDATA[PCC]]></category>
		<category><![CDATA[Soberania nacional]]></category>
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					<description><![CDATA[Medida do governo Trump inclui facções brasileiras na política antiterrorista dos Estados Unidos. Para o Manguinhos On-line, combater o crime organizado não pode abrir caminho para tutela estrangeira, militarização das periferias ou políticas que coloquem moradores em ainda mais risco.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p class="PDq2pG_selectionAnchorContainer" data-start="1340" data-end="1707">Os Estados Unidos anunciaram a classificação do <strong data-start="1388" data-end="1425">Primeiro Comando da Capital (PCC)</strong> e do <strong data-start="1431" data-end="1456">Comando Vermelho (CV)</strong> como organizações terroristas estrangeiras. A decisão, feita durante o governo de Donald Trump, desloca duas das maiores facções criminosas brasileiras do campo do crime organizado para o campo do contraterrorismo na política externa norte-americana.</p>
<p data-start="1709" data-end="2175">O anúncio foi feito pelo Departamento de Estado dos EUA em 28 de maio de 2026. Segundo o comunicado oficial, PCC e CV seriam incluídos como <strong data-start="1849" data-end="1884">Foreign Terrorist Organizations</strong>, conhecidas pela sigla FTO, e também como <strong data-start="1927" data-end="1969">Specially Designated Global Terrorists</strong>, categoria usada para aplicar sanções financeiras contra pessoas e grupos considerados terroristas pelo governo norte-americano. A medida passou a valer em 5 de junho.</p>
<p data-start="2177" data-end="2647">À primeira vista, a decisão pode parecer apenas uma reação dura contra organizações violentas. Mas o problema é mais complexo. Quando um país estrangeiro passa a definir grupos internos do Brasil como “terroristas”, cria-se uma nova camada de pressão diplomática, jurídica, financeira e política sobre o Estado brasileiro. E, historicamente, quem costuma pagar primeiro o preço das políticas de guerra às drogas e militarização são os moradores das favelas e periferias.</p>
<h2 data-section-id="1s445pz" data-start="2649" data-end="2684">O que os Estados Unidos fizeram?</h2>
<p data-start="2686" data-end="2944">Na prática, o governo dos EUA colocou PCC e Comando Vermelho em uma categoria usada tradicionalmente contra grupos armados estrangeiros tratados por Washington como ameaça à segurança nacional, aos interesses econômicos ou à política externa norte-americana.</p>
<p data-start="2946" data-end="3332">Segundo o Departamento de Estado, a classificação como FTO tem três efeitos principais: torna ilegal, para pessoas sob jurisdição dos EUA, oferecer “apoio material” ao grupo; permite restrições migratórias contra integrantes e representantes; e obriga instituições financeiras norte-americanas a reter e comunicar recursos vinculados à organização.</p>
<p data-start="3334" data-end="3873">Além disso, a classificação como SDGT aciona sanções do Tesouro dos EUA. Isso pode bloquear bens, impedir transações e atingir pessoas ou empresas que, segundo as autoridades norte-americanas, mantenham relações com indivíduos ou estruturas ligadas aos grupos designados. A OFAC, órgão do Tesouro responsável por sanções, afirma que cidadãos, empresas e instituições sob jurisdição dos EUA podem sofrer penalidades civis e criminais caso façam transações proibidas com pessoas ou entidades bloqueadas.</p>
<h2 data-section-id="1w0mc9y" data-start="3875" data-end="3926">A medida autoriza intervenção militar no Brasil?</h2>
<p data-start="3928" data-end="3948">Não automaticamente.</p>
<p data-start="3950" data-end="4270">A classificação de uma organização como terrorista pelos Estados Unidos <strong data-start="4022" data-end="4109">não dá, por si só, autorização legal para operação militar em território brasileiro</strong>. O Brasil é um país soberano, com Constituição, leis próprias, sistema de Justiça, Polícia Federal, Forças Armadas, Ministério Público e órgãos de inteligência.</p>
<p data-start="4272" data-end="4540">Mas o risco político existe. A preocupação é que a categoria “terrorismo” seja usada para justificar políticas excepcionais, aumentar pressão sobre o Brasil, ampliar sanções, afetar empresas e criar um ambiente favorável à militarização do combate ao crime organizado.</p>
<p data-start="4542" data-end="5114">Essa preocupação não é abstrata. Em outros contextos recentes na América Latina e no Caribe, o governo Trump usou a linguagem da “guerra contra cartéis” e do “narcoterrorismo” para justificar ataques militares contra embarcações suspeitas de tráfico de drogas. Reportagens da Reuters e da PBS registraram questionamentos jurídicos sobre essas ações, inclusive porque especialistas afirmaram que mudar o rótulo de um problema criminal para “terrorismo” não cria automaticamente autorização para matar pessoas sem devido processo legal.</p>
<p data-start="5116" data-end="5329">É por isso que o debate importa para o Brasil. A pergunta não é se PCC e CV são organizações violentas. São. A pergunta é: <strong data-start="5239" data-end="5329">quem define a política de segurança pública brasileira? O Brasil ou os Estados Unidos?</strong></p>
<h2 data-section-id="um6rj3" data-start="5331" data-end="5380">Governo brasileiro reagiu falando em soberania</h2>
<p data-start="5382" data-end="5827">O governo brasileiro tentou evitar a designação, segundo a Agência Brasil, por avaliar que a medida poderia abrir caminho para ações militares dos EUA no Brasil ou para sanções severas em setores econômicos e financeiros. Após o anúncio, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva rejeitou interferência externa e afirmou que o combate às facções deve ser feito dentro do Brasil, pelas instituições brasileiras.</p>
<p data-start="5829" data-end="6165">A Reuters também informou que fontes brasileiras avaliaram que a designação poderia atrapalhar a cooperação policial entre Brasil e Estados Unidos, inclusive pela possibilidade de investigações passarem a ser tratadas em outro nível de sigilo e controle por órgãos de inteligência norte-americanos.</p>
<p data-start="6167" data-end="6508">Ou seja: mesmo quem defende cooperação internacional contra o crime organizado precisa discutir os limites dessa cooperação. Cooperação é troca de inteligência, rastreamento financeiro, combate à lavagem de dinheiro, controle de armas, investigação de rotas internacionais e responsabilização de criminosos. Tutela estrangeira é outra coisa.</p>
<h2 data-section-id="18r7c6q" data-start="8270" data-end="8315">Terrorismo tem definição própria no Brasil</h2>
<p data-start="8317" data-end="8666">No Brasil, terrorismo não é qualquer crime violento. A <strong data-start="8372" data-end="8394">Lei nº 13.260/2016</strong>, conhecida como Lei Antiterrorismo, define terrorismo como a prática de determinados atos por razões de xenofobia, discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia e religião, com finalidade de provocar terror social ou generalizado.</p>
<p data-start="8668" data-end="9067">A mesma lei também faz uma ressalva importante: ela não se aplica à conduta individual ou coletiva de pessoas em manifestações políticas, movimentos sociais, sindicais, religiosos, de classe ou de categoria profissional, quando direcionadas por propósitos sociais ou reivindicatórios, com objetivo de defender direitos, garantias e liberdades constitucionais.</p>
<p data-start="9069" data-end="9356">Essa diferença é fundamental. Quando o termo “terrorismo” se amplia demais, ele pode deixar de servir apenas ao combate de atos terroristas reais e passar a ser usado como ferramenta política para criminalizar protestos, lideranças comunitárias, movimentos sociais e populações inteiras.</p>
<h2 data-section-id="wgenro" data-start="9358" data-end="9384">O risco para as favelas</h2>
<p data-start="9386" data-end="9467">A favela conhece muito bem o que acontece quando a segurança pública vira guerra.</p>
<p data-start="9469" data-end="9729">O discurso da guerra costuma chegar com blindados, helicópteros, fuzis, escolas fechadas, unidades de saúde interrompidas, transporte paralisado, trabalhadores impedidos de sair de casa e moradores tratados como suspeitos antes de serem tratados como cidadãos.</p>
<p data-start="9731" data-end="10085">Em 2025, <strong data-start="9740" data-end="9831">797 pessoas morreram em decorrência de intervenção policial no estado do Rio de Janeiro</strong>, aumento de 13% em relação às 703 mortes registradas em 2024, segundo dados do Instituto de Segurança Pública divulgados pela Agência Brasil. No mesmo ano, o estado registrou 3.881 mortes decorrentes da violência.</p>
<p data-start="10087" data-end="10272">Esse dado precisa estar no centro do debate. Se a resposta ao crime organizado for apenas aumentar a lógica militar, quem mora em áreas populares pode ser colocado em risco ainda maior.</p>
<p data-start="10274" data-end="10523">O Brasil tem <strong data-start="10287" data-end="10356">16,39 milhões de pessoas vivendo em favelas e comunidades urbanas</strong>, segundo o Censo 2022 do IBGE. Isso representa 8,1% da população do país, distribuída em 12.348 favelas e comunidades urbanas.</p>
<p data-start="10525" data-end="10860">Quando se fala em “intervenção”, “narcoterrorismo”, “guerra urbana” ou “alvo militar”, não se está falando de um mapa vazio. Está se falando de territórios onde vivem crianças, idosos, trabalhadores, estudantes, mães, comerciantes, entregadores, professores, profissionais de saúde, artistas, religiosos, coletivos e famílias inteiras.</p>
<h2 data-section-id="wac2jo" data-start="10862" data-end="10891">O perigo da estigmatização</h2>
<p data-start="10893" data-end="11003">Um dos efeitos mais graves desse tipo de classificação é a possibilidade de estigmatizar territórios inteiros.</p>
<p data-start="11005" data-end="11195">Se uma facção é chamada de terrorista e ela atua em determinada área, existe o risco de que a comunidade seja vista como “território terrorista”. Essa associação é injusta, perigosa e falsa.</p>
<p data-start="11197" data-end="11288">Morador não é facção. Favela não é organização criminosa. Comunidade não é base terrorista.</p>
<p data-start="11290" data-end="11580">A maioria absoluta dos moradores de territórios populares é vítima da violência armada, da ausência do Estado, da precariedade dos serviços públicos, do racismo estrutural, da falta de oportunidades e da insegurança produzida tanto por grupos criminosos quanto por operações mal planejadas.</p>
<p data-start="11582" data-end="11648">Tratar a favela como inimiga é uma forma de aprofundar o problema.</p>
<h2 data-section-id="x3luy7" data-start="11650" data-end="11698">O crime organizado também atua fora da favela</h2>
<p data-start="11700" data-end="12041">Outro ponto precisa ser dito com clareza: facção não sobrevive apenas na boca de fumo. Crime organizado também depende de lavagem de dinheiro, empresas de fachada, corrupção, armas, rotas internacionais, sistemas financeiros, operadores jurídicos, agentes públicos corrompidos, logística, portos, aeroportos, tecnologia e mercado consumidor.</p>
<p data-start="12043" data-end="12200">Se o enfrentamento fica concentrado apenas no território pobre, deixa de fora as estruturas econômicas que alimentam o crime.</p>
<h2 data-section-id="1r91xbw" data-start="12535" data-end="12571">O histórico dos EUA exige cautela</h2>
<p data-start="12573" data-end="13082">A América Latina tem uma longa história de intervenções, pressões e apoios externos a projetos autoritários. No caso brasileiro, documentos desclassificados mostram que o governo dos Estados Unidos acompanhou e apoiou setores envolvidos no golpe de 1964, que deu início à ditadura militar no Brasil. O National Security Archive, da Universidade George Washington, publicou registros que mostram o envolvimento do governo Lyndon Johnson nas articulações daquele período.</p>
<p data-start="13084" data-end="13216">Esse passado não significa que toda cooperação internacional seja negativa. Mas significa que o Brasil precisa ter memória política.</p>
<p data-start="13218" data-end="13471">Quando uma potência estrangeira passa a classificar problemas internos brasileiros dentro de sua própria doutrina de segurança, é legítimo perguntar: a quem essa medida serve? Quem controla seus efeitos? Quem será protegido? Quem será colocado em risco?</p>
<h2 data-section-id="lvmuxa" data-start="13473" data-end="13535">Segurança pública não pode ser importada como pacote pronto</h2>
<p data-start="13537" data-end="13700">O Brasil precisa enfrentar o crime organizado. Mas não precisa importar soluções prontas, especialmente quando essas soluções vêm embaladas em linguagem de guerra.</p>
<p data-start="13702" data-end="13766">O país precisa de uma política de segurança pública que combine:</p>
<p data-start="13768" data-end="13792">investigação financeira;</p>
<p data-start="13794" data-end="13816">inteligência;</p>
<p data-start="13818" data-end="13847">controle de armas e munições;</p>
<p data-start="13849" data-end="13879">combate à lavagem de dinheiro;</p>
<p data-start="14000" data-end="14031">redução da letalidade policial;</p>
<p data-start="14077" data-end="14136">educação, cultura, saúde, urbanização, emprego e juventude.</p>
<p data-start="14138" data-end="14409">Segurança pública não é só operação. Segurança pública também é garantir que a escola funcione, que o posto de saúde abra, que o transporte circule, que o jovem tenha perspectiva, que a rua tenha iluminação, que a família tenha renda e que o morador possa viver sem medo.</p>
<h2 data-section-id="19a5nn0" data-start="15022" data-end="15061">O que isso tem a ver com Manguinhos?</h2>
<p data-start="15063" data-end="15245">Manguinhos sabe o que significa viver entre ausência do Estado, operações policiais, transporte interrompido, escolas fechadas, serviços precários e medo cotidiano.</p>
<p data-start="15247" data-end="15616">Quando uma medida internacional fortalece a ideia de que determinados territórios devem ser tratados como espaços de guerra, isso chega à favela. Chega na forma como a opinião pública enxerga o morador. Chega na forma como políticas de segurança são desenhadas. Chega na forma como uma operação é autorizada. Chega na forma como uma vida é ou não considerada protegida.</p>
<p data-start="15618" data-end="15655">Por isso, esse debate não é distante.</p>
<p data-start="15657" data-end="15904">A política externa dos Estados Unidos pode parecer assunto de diplomata, presidente e embaixador. Mas, quando ela ajuda a reforçar uma lógica de guerra dentro de territórios populares, ela passa a ter impacto direto na vida de quem mora na favela.</p>
<p data-start="16794" data-end="16961" data-is-last-node="" data-is-only-node=""><strong data-start="16794" data-end="16961" data-is-last-node="">Defendemos que o Brasil resolva seus problemas sem seguir ordens estrangeiras, e sem fazer das favelas o primeiro alvo de mais uma guerra.</strong></p>
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