História e memória

Arquivo Preto – Capítulo 6: Milton Santos

Em novo capítulo do Arquivo Preto, Manguinhos On-line destaca o pensamento do geógrafo brasileiro e sua importância para entender as periferias, as cidades e o cotidiano da população
19/06/2026 | 19h00
Ouça este conteúdo
Leitura automática da matéria
00:00 / 03:45

O Manguinhos On-line publicou mais um capítulo da série Arquivo Preto, projeto dedicado a valorizar trajetórias, pensamentos e contribuições de personalidades negras para a história, a cultura e a vida social brasileira.

O episódio destaca Milton Santos, geógrafo, professor, escritor e intelectual brasileiro que se tornou uma das principais referências mundiais nos estudos sobre território, urbanização, globalização e desigualdades. Nascido na Bahia, em 1926, Milton Santos teve uma trajetória acadêmica reconhecida no Brasil e no exterior, com passagem por universidades como a Universidade Federal da Bahia, Paris 1 Panthéon-Sorbonne, Columbia, Toronto e USP.

A publicação resume uma das ideias centrais do pensamento de Milton Santos: território não é só um ponto no mapa. Para ele, o território precisa ser entendido a partir da vida concreta das pessoas, das relações sociais, das desigualdades, dos serviços públicos, dos deslocamentos, das ausências do Estado e das formas de resistência construídas no cotidiano.

Território é onde a vida acontece

No pensamento de Milton Santos, o território não é apenas uma área delimitada por ruas, fronteiras ou coordenadas geográficas. O território é também o lugar onde as pessoas moram, trabalham, estudam, circulam, criam vínculos e enfrentam problemas sociais.

Essa leitura é importante para compreender comunidades como Manguinhos. Quando se fala em território, não se fala apenas de localização. Fala-se de transporte, moradia, saneamento, saúde, escola, cultura, segurança pública, memória e direito à cidade.

A noção de território usado, associada à obra de Milton Santos, amplia essa compreensão: o território é formado não só pelo espaço físico, mas também pelas infraestruturas, fluxos, relações de poder e práticas sociais que atravessam a vida cotidiana.

Desigualdade também aparece no espaço

Milton Santos ajudou a mostrar que as desigualdades não estão soltas no mundo. Elas aparecem no espaço. Aparecem quando uma região tem mais acesso a transporte, saúde, escola, cultura e emprego do que outra. Aparecem quando parte da população precisa atravessar a cidade para trabalhar. Aparecem quando certos territórios são lembrados apenas pela violência, mas esquecidos quando o assunto é investimento público.

Em obras como O Espaço do Cidadão, Milton Santos discutiu a cidadania a partir da geografia, mostrando como o lugar onde uma pessoa vive interfere no acesso a bens, serviços e oportunidades.

Para territórios populares, essa leitura é fundamental. Ela ajuda a entender que a vida nas periferias não pode ser explicada apenas por números ou mapas. É preciso olhar para a experiência de quem vive o território todos os dias.

Um intelectual negro reconhecido no mundo

Milton Santos foi um dos intelectuais brasileiros mais importantes do século XX. Em 1994, recebeu o Prêmio Vautrin Lud, considerado uma das maiores honrarias internacionais da Geografia.

Seu pensamento ultrapassou os muros da universidade porque ajudou a explicar problemas concretos da sociedade brasileira: a desigualdade urbana, a globalização, a pobreza, a cidadania incompleta e a forma como o território pode ser usado tanto para excluir quanto para resistir.

Por que Milton Santos importa para Manguinhos

Falar de Milton Santos em Manguinhos é falar sobre como a comunidade também produz conhecimento sobre a cidade. É reconhecer que os territórios populares não são espaços vazios, nem lugares definidos apenas pela falta. São territórios de vida, cultura, trabalho, memória, afeto e luta.

Quando moradores reivindicam transporte digno, saneamento, segurança, saúde, escola, cultura e respeito, estão disputando o direito ao território. Estão afirmando que a cidade também pertence a quem vive nas favelas e periferias.

É por isso que Milton Santos segue atual. Seu pensamento ajuda a compreender que o território é, ao mesmo tempo, lugar de desigualdade e lugar de resistência.

O Arquivo Preto segue como uma iniciativa do Manguinhos On-line para lembrar que a história negra brasileira também está nos livros, nas ruas, nas comunidades, nas universidades, nas artes, na política e nas formas cotidianas de luta por direitos.