Vozes de Manguinhos

Vozes de Manguinhos #1: Adriano Rodrigues

Comunicador do Manguinhos On-line, Adriano fala sobre memória, território e a importância de Manguinhos contar suas próprias histórias.
14/07/2026 | 09h50
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Manguinhos é formado por muitas histórias, memórias e maneiras de compreender o território. Durante décadas, porém, grande parte dessas experiências foi contada a partir do olhar de quem observa a comunidade de fora.

O Vozes de Manguinhos nasce para ajudar a transformar essa realidade. O novo quadro do Manguinhos On-line abre espaço para que moradores, trabalhadores, artistas, lideranças, comunicadores e outras pessoas que constroem o território possam registrar suas vivências e contar Manguinhos a partir de seus próprios olhares.

Para abrir a série, os primeiros relatos vêm de quem também participa da construção dessa escuta: os integrantes do Manguinhos On-line. Nesta edição, conversamos com Adriano Rodrigues, cria de Manguinhos, doutorando em Comunicação pela UERJ, pesquisador de comunicação comunitária e membro fundador do coletivo.

Entre lembranças da infância, experiências marcadas pela violência, reflexões sobre o papel da mídia e esperanças para o futuro, Adriano fala sobre o território que formou sua identidade e despertou seu interesse pela comunicação.

A seguir, ele compartilha sua história e explica por que acredita que Manguinhos precisa contar, preservar e disputar as próprias narrativas.

1. Conte um pouco de você e da sua história em Manguinhos.

Eu sou Adriano Rodrigues, doutorando em Comunicação pela UERJ, e pesquiso comunicação comunitária. Mas, antes de tudo isso, eu sou um cria de Manguinhos.

Nasci e cresci aqui. Minha mãe também nasceu e cresceu em Manguinhos. Meu pai veio do Nordeste ainda jovem, como tantos outros nordestinos, buscando uma vida melhor no Rio de Janeiro. Foi aqui que eles se conheceram, construíram a família e foi aqui que eu cresci. Então, quando eu falo de Manguinhos, eu não estou falando de um lugar onde morei. Eu estou falando do lugar que me formou.

Toda a minha vida aconteceu aqui. Foi aqui que fiz amizades que levo até hoje, que aprendi a enxergar o mundo, que comecei a entender as desigualdades, mas também a força que existe dentro de uma comunidade. Acho que, de certa forma, escolher estudar comunicação não foi por acaso. Crescer em Manguinhos me fez perceber muito cedo que existia uma diferença enorme entre o território que eu conhecia e aquele que aparecia na televisão.

Enquanto eu via solidariedade, cultura, vizinhos que se conheciam pelo nome e uma comunidade extremamente viva, quase sempre a mídia mostrava só a violência. Isso sempre me incomodou muito. E foi justamente dessa inquietação que nasceu o meu interesse pela comunicação comunitária.

Anos depois, em 2024, essa vontade ganhou uma forma mais concreta com o Manguinhos On-line. A ideia nunca foi criar apenas um portal de notícias, mas construir um espaço onde a própria comunidade pudesse contar sua história, registrar sua memória e mostrar que Manguinhos é muito maior do que os estereótipos que foram criados sobre ele.

2. Que lembranças, cenas ou sentimentos aparecem quando você pensa em Manguinhos?

É engraçado porque, quando penso em Manguinhos, vêm sentimentos completamente diferentes ao mesmo tempo.

A primeira lembrança é da infância. Daquela liberdade que hoje parece até estranha. A gente passava horas brincando na rua, jogando bola, andando de bicicleta, inventando brincadeiras, indo na casa dos amigos. Minha maior preocupação era ir para a escola, fazer o dever de casa e esperar dar a hora de brincar de novo. Era uma infância muito simples, mas muito feliz.

Ao mesmo tempo, conforme fui crescendo, outras lembranças começaram a ocupar esse espaço. A violência passou a fazer parte da rotina de uma forma que nunca deveria acontecer com ninguém. Os dias de operação eram dias de medo. Já fiquei preso em comércio, em escola, esperando os tiros pararem para conseguir voltar para casa. Isso acaba deixando marcas que nem sempre são visíveis, mas que ficam com a gente.

E acho que existe uma coisa muito cruel nisso tudo, porque a gente acaba naturalizando situações que jamais deveriam ser normais. Crescer sabendo diferenciar o som dos tiros, mudar o caminho por causa de operação ou cancelar compromissos porque “o clima não está bom” não deveria fazer parte da vida de ninguém.

Mas, apesar disso tudo, quando penso em Manguinhos hoje, também sinto esperança.

Nos últimos anos eu tenho visto nascer muita coisa bonita. Coletivos culturais, projetos sociais, iniciativas de comunicação, pessoas produzindo conteúdo, empreendendo, ocupando espaços que antes pareciam impossíveis. Acho que a internet e as redes sociais deram voz para muita gente que nunca teve oportunidade de mostrar seu trabalho.

Então Manguinhos, para mim, é isso, um território cheio de cicatrizes, mas que nunca deixou de produzir vida.

3. Pela sua vivência, o que em Manguinhos precisa ser mais reconhecido, cuidado ou valorizado?

Se eu tivesse que escolher uma coisa, diria que são as pessoas.

Existe uma tendência muito grande de olhar para Manguinhos apenas pelos problemas. Só que quem vive aqui sabe que o território funciona porque existem centenas de pessoas que dedicam suas vidas a cuidar dele. Tem professores, agentes de saúde, lideranças comunitárias, artistas, comunicadores, pesquisadores, coletivos, projetos sociais… gente que trabalha todos os dias para tornar Manguinhos um lugar melhor.

Essas pessoas quase nunca aparecem. E, quando aparecem, normalmente é porque ganharam algum prêmio ou fizeram algo extraordinário. Mas, para mim, o extraordinário é justamente o trabalho cotidiano que elas realizam.

Também acho que a gente precisa valorizar mais esse senso de comunidade que ainda existe aqui. Em muitos lugares da cidade você nem conhece quem mora no apartamento ao lado. Em Manguinhos ainda existe uma relação diferente. As pessoas se conhecem, sabem o nome umas das outras, perguntam como a família está, ajudam quando alguém precisa. Claro que isso não acontece em todos os lugares e nem com todas as pessoas, mas ainda é uma característica muito forte do território.

Às vezes eu gosto de pensar que Manguinhos guarda um pouco dessa lógica das comunidades tradicionais, onde a vida não é construída só individualmente, mas também coletivamente. Acho que isso precisa ser preservado, porque é uma das maiores riquezas que a gente tem.

E, claro, também espero que iniciativas como o Manguinhos On-line possam contribuir para esse reconhecimento. Quanto mais a gente registra e divulga o que existe de bom aqui, mais difícil fica reduzir Manguinhos a uma única narrativa.

4. Por que é importante que Manguinhos produza suas próprias narrativas?

Porque durante muito tempo outras pessoas falaram por nós.

Quando alguém de fora conta a história de Manguinhos, normalmente ela chega aqui em um momento específico, vê um recorte da realidade e vai embora. Quem vive aqui sabe que a vida no território é muito mais complexa do que isso. Existem problemas, claro, e eles precisam ser mostrados. Mas também existem histórias de superação, de afeto, de cultura, de ciência, de educação, de gente que transforma a vida de outras pessoas todos os dias. E essas histórias quase nunca ganham espaço.

A comunicação comunitária é importante justamente porque ela muda esse lugar de fala. Não é mais alguém interpretando quem nós somos. Somos nós contando a nossa própria história.

Foi muito dessa inquietação que nasceu o Manguinhos On-line. A ideia nunca foi esconder os problemas do território ou pintar uma realidade perfeita. Pelo contrário. É mostrar Manguinhos por inteiro. Mostrar as dificuldades, mas também mostrar tudo aquilo que faz a gente sentir orgulho de morar aqui. Porque uma comunidade só consegue preservar sua memória quando ela mesma registra sua história.

5. Que Manguinhos você gostaria de ver no futuro?

Eu sonho com um Manguinhos onde as crianças possam viver a infância que eu vivi, mas sem o medo que também fez parte dela.

Queria que elas pudessem brincar na rua, voltar da escola tranquilas, ocupar os espaços públicos, frequentar projetos culturais e esportivos sem que uma operação policial interrompesse a rotina. Parece algo simples, mas infelizmente ainda não é a realidade de muita gente.

Também gostaria de ver Manguinhos sendo reconhecido pelas coisas boas que produz. A Fiocruz está aqui, existem coletivos incríveis, artistas, pesquisadores, comunicadores, empreendedores… existe muito conhecimento sendo produzido dentro do território. Acho que a gente precisa fazer com que isso apareça mais.

E espero que, daqui a alguns anos, quando alguém ouvir o nome Manguinhos, a primeira imagem que venha à cabeça não seja a violência. Que pense também em ciência, cultura, comunicação, educação, potência e transformação social.

No fim das contas, eu queria um Manguinhos que continuasse preservando esse senso de comunidade que sempre existiu, mas com muito mais oportunidades para quem nasce e cresce aqui.

6. Que mensagem você deixaria para as pessoas que vivem e constroem Manguinhos?

Eu acho que a primeira coisa é agradecer.

Agradecer a todas as pessoas que, mesmo enfrentando tantas dificuldades, continuam acreditando no território e trabalhando para que ele seja um lugar melhor. Às vezes a gente olha para um projeto social, um coletivo cultural ou uma iniciativa comunitária e esquece que, por trás daquilo, existem pessoas dedicando tempo, energia e, muitas vezes, recursos próprios para fazer acontecer.

Também queria dizer para que a gente não deixe de contar as nossas histórias. Parece uma coisa simples, mas não é. Quando a gente registra uma memória, uma fotografia, um vídeo, uma reportagem ou um relato de vida, a gente está construindo a história de Manguinhos a partir do olhar de quem realmente vive aqui.

E, por fim, queria deixar um convite… ocupem os espaços. Participem dos coletivos, valorizem os pequenos negócios, fortaleçam quem produz cultura, comunicação e conhecimento dentro do território. Nenhum projeto transforma uma comunidade sozinho. Mas, quando várias pessoas acreditam na mesma ideia e caminham juntas, a transformação deixa de ser um sonho e começa a acontecer.

É nisso que eu acredito. E é por isso que continuo acreditando em Manguinhos.

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A história de Adriano marca a abertura do Vozes de Manguinhos e apresenta o sentido que orienta o quadro: registrar o território a partir das pessoas que vivem, constroem e comunicam Manguinhos por dentro.

Suas lembranças revelam uma comunidade atravessada por contrastes. De um lado, a liberdade das brincadeiras na rua, as amizades, a solidariedade entre vizinhos e a força da vida coletiva. Do outro, o medo provocado pelas operações policiais e a naturalização de situações que jamais deveriam fazer parte da infância ou da rotina de qualquer pessoa.

Foi também a partir desse contraste que Adriano passou a questionar a distância entre o Manguinhos vivido por seus moradores e aquele frequentemente apresentado pela mídia. Sua trajetória mostra como essa inquietação encontrou na comunicação comunitária uma possibilidade de ação, memória e transformação.

Ao defender que a comunidade conte suas próprias histórias, Adriano não propõe esconder os problemas do território, mas ampliar o modo como ele é visto. Registrar Manguinhos por inteiro significa denunciar suas desigualdades, reconhecer quem trabalha diariamente por sua transformação e valorizar tudo aquilo que também produz orgulho, conhecimento e pertencimento.

Entre cicatrizes, memórias e esperanças, sua fala deixa um convite: ocupar os espaços, fortalecer as iniciativas locais e continuar acreditando que, quando uma comunidade registra a própria história e caminha coletivamente, a transformação começa a deixar de ser apenas um sonho.