Vozes de Manguinhos #3: Samuel Xavier
O Vozes de Manguinhos segue apresentando as histórias dos comunicadores que ajudam a construir o Manguinhos On-line e que encontram na comunicação uma forma de registrar, questionar e transformar o território.
Nesta edição, ouvimos Samuel Xavier, de 19 anos, estudante de Jornalismo e um dos membros fundadores do coletivo. Nascido e criado em Manguinhos, Samuel carrega em sua trajetória a memória de uma família que participou da formação do Conjunto Habitacional Nelson Mandela e as marcas de uma juventude atravessada pelas desigualdades, pela violência e pelo desejo de mudança.
Entre lembranças familiares, experiências vividas durante operações policiais e reflexões sobre cultura, educação, memória e direito à cidade, Samuel apresenta um olhar jovem, crítico e profundamente ligado à vida comunitária.
A seguir, ele conta um pouco de sua história e do Manguinhos que conhece, questiona e deseja ajudar a construir.
1. Conte um pouco de você e da sua história em Manguinhos.
Sou Samuel Xavier, tenho 19 anos. Minha família veio do Espírito Santo para os barracos de palafita do Jacarezinho e foi uma das primeiras moradoras do Conjunto Habitacional Nelson Mandela. Nasci e cresci em Manguinhos, onde morei por cerca de 16 anos. Foi aqui que construí minhas vivências, minhas relações e a forma como enxergo o mundo. Passei poucas e boas por lá, mas foram justamente essas experiências que despertaram em mim um sentimento de revolta diante das desigualdades e me fizeram me organizar enquanto morador, batalhando por um futuro melhor para o território e para quem vive nele.
2. Que lembranças, cenas ou sentimentos aparecem quando você pensa em Manguinhos?
Cenas muito opostas me fazem lembrar de Manguinhos. Mas, sem dúvidas, a que mais me marcou foi no dia da abertura dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. A polícia invadiu a comunidade enquanto eu estava com minha tia e meu irmão em um beco. O confronto começou dos dois lados e nós ficamos no meio do tiroteio. Foi quando um casal de mulheres abriu a janela, viu a nossa situação e nos chamou para entrar na casa delas. Tivemos que esperar um bom tempo até conseguir atravessar a troca de tiros. Depois que as balas pararam, entramos e permanecemos lá por longas horas. Enquanto isso, do lado de fora, a cidade comemorava por sediar um dos maiores eventos do mundo.
3. Pela sua vivência, o que em Manguinhos precisa ser mais reconhecido, cuidado ou valorizado?
Os equipamentos culturais, os diversos projetos sociais e as instituições presentes no território precisam ser mais valorizados. Manguinhos tem o quinto pior IDH do estado, e acredito que nossas instituições de ensino deveriam receber mais investimentos. Justamente por serem consideradas instituições-modelo, elas refletem muito do que se pretende oferecer como educação para a população mais pobre. Alguns patrimônios históricos também merecem mais cuidado, como a igreja projetada por Oscar Niemeyer e a primeira estação de trem elevada da América Latina.
4. Por que é importante que Manguinhos produza suas próprias narrativas?
Para reforçar sua resistência. A comunidade que se desenvolveu junto com a Fiocruz hoje não desenvolve apenas a instituição, mas também a cidade. As histórias, os dilemas, os sofrimentos e as experiências dos moradores impactam toda a sociedade. Esse impacto precisa ser reconhecido como um problema social, e não apenas como um problema local.
5. Que Manguinhos você gostaria de ver no futuro?
Gostaria de ver um Manguinhos conhecido pela sua diversidade cultural, com menos trânsito, mais limpo, com menos enchentes, sem incursões policiais truculentas e livre dos estereótipos que ainda marcam o território.
6. Que mensagem você deixaria para as pessoas que vivem e constroem Manguinhos?
Nunca percam o senso de comunidade, porque sempre será nós por nós. Todas as mudanças que precisamos construir serão feitas juntos. Nunca podemos desistir de ter, ao menos, um pingo de dignidade. É justamente quando nos conformamos com a precariedade que a desigualdade se fortalece. Precisamos dar um basta nisso e continuar lutando por uma vida mais digna para todos.
–
A trajetória de Samuel revela como as experiências vividas em Manguinhos podem produzir não apenas marcas, mas também consciência, indignação e vontade de transformação.
Ao lembrar a história de sua família, denunciar a naturalização da violência e defender a valorização dos equipamentos culturais, educacionais e históricos do território, Samuel mostra que falar de Manguinhos é também falar sobre as desigualdades que atravessam toda a cidade.
Sua fala reforça que a comunicação popular nasce justamente desse compromisso: transformar vivências individuais em memória coletiva, denunciar aquilo que não pode ser tratado como normal e disputar o futuro do território.
Entre a revolta diante da precariedade e a esperança construída pela organização comunitária, Samuel deixa uma mensagem direta: nenhuma mudança será feita de forma isolada. Preservar o senso de comunidade, recusar a conformidade e continuar lutando por dignidade também são formas de construir um novo Manguinhos.
