Vozes de Manguinhos #2: Isabella Marques
Manguinhos não deixa de fazer parte de alguém quando essa pessoa atravessa suas fronteiras. O território permanece nas lembranças, nos vínculos familiares, na maneira de compreender o mundo e nas escolhas construídas ao longo da vida.
Nesta edição do Vozes de Manguinhos, ouvimos Isabella Marques, estudante de Licenciatura em Ciências Sociais na UFRJ, nascida e criada em Manguinhos. Embora atualmente não more mais no território, Isabella reconhece a favela como o lugar onde sua identidade começou a ser formada e onde teve seus primeiros contatos com as desigualdades, os afetos e as formas coletivas de viver.
Entre lembranças dos encontros familiares na laje, experiências marcadas pela violência do Estado e reflexões sobre justiça social, solidariedade e pertencimento, Isabella apresenta Manguinhos como um território que produz conhecimentos, consciência política e potência.
A seguir, ela compartilha suas memórias e reflete sobre o reconhecimento dos saberes dos moradores, a disputa das narrativas sobre a favela e o futuro que deseja para Manguinhos.
1. Conte um pouco de você e da sua história em Manguinhos.
Olá, eu me chamo Isabella Marques, é… sou estudante da UFRJ, curso Licenciatura em Ciências Sociais e sou cria de Manguinhos, ex-moradora de Manguinhos, mas sou nascida e criada na favela [de Manguinhos].
Então, minha história com Manguinhos se inicia quando eu nasço, né? Na verdade, bem antes, quando os meus antepassados, a minha avó, a minha mãe, os meus avós, enfim, decidiram vir para cá, para o Rio de Janeiro. Meu avô já era carioca. E construíram a casa em que vivi a maior parte da minha vida. Tenho muitas lembranças boas de Manguinhos. Foi o lugar onde eu entendi e aprendi muito, e que formou a minha identidade. É um lugar que marca as minhas memórias, o primeiro contato com o mundo que eu tive. O meu mundo, quando eu era pequena, era Manguinhos.
Bom, agora adulta, vejo que tem muitas coisas que fazem parte da pessoa que sou hoje. E que as minhas percepções sociais, como a minha sede por justiça social, toda a raiva que organizei depois politicamente em relação às injustiças sociais, à violência do estado, à violência de gênero… enfim, tudo isso foram coisas que me atravessaram, sendo moradora de favela, sobretudo de Manguinhos. Então, acho que isso me formou, formou a minha identidade e a potência que sou hoje como sujeito social.
2. Que lembranças, cenas ou sentimentos aparecem quando você pensa em Manguinhos?
As minhas lembranças são muito marcadas pelo que a minha família viveu e passou. E bom, as cenas e os sentimentos também são atravessados por isso. Sinto uma saudade de acordar de manhã nos finais de semana e a minha família estar na minha laje fazendo churrasco. Enfim, acordar com aquela agitação boa e bacana de família. Um sentimento de festa, sabe?
E uma liberdade maior de segurança, de andar pelas ruas à noite e saber que vou chegar em casa e que, enfim, posso passar por outros tipos de violência, mas não vou ser assaltada, por exemplo. Essa questão da segurança mudou muito para mim ao longo da vida. Eu lembro dessas coisas que são boas e de coisas ruins também, lógico. Lembro das sensações e dos sentimentos que eu tinha quando havia operação policial e eu não ia para a escola. Tenho uma lembrança horrível da minha família se escondendo na nossa escada, que era o lugar mais afastado da porta e da janela, porque jogaram gás lacrimogêneo na rua.
Tem tudo isso. Mas também tenho essas lembranças boas dos verões na laje da minha avó, com piscina, galão de água e tudo mais, eu tentando aprender a soltar pipa. Nunca aprendi, mas enfim.
3. Pela sua vivência, o que em Manguinhos precisa ser mais reconhecido, cuidado ou valorizado?
Acho que o que precisa ser mais reconhecido é uma noção de solidariedade que move os moradores de favela e de Manguinhos. É muito interessante que a gente se junta para resolver problemas que são coletivos, se solidariza com o outro. Isso precisa ser reconhecido.
Além disso, todo saber é válido e as pessoas moradoras de favela têm muito saber. Só que esse saber muitas das vezes é lido como descartável, um saber que não é saber. Mas acho que toda aplicação de política pública na favela, por exemplo, deveria e deve passar pelos saberes das pessoas que moram e vivem naquele território. Então, Manguinhos concentra muitos saberes e isso deve ser reconhecido.
4. Por que é importante que Manguinhos produza suas próprias narrativas?
É importante que Manguinhos produza suas próprias narrativas porque sempre dizem muitas coisas sobre lá, e são sempre coisas muito ruins. Não reconhecem os nossos saberes, não reconhecem as nossas potências, e muitas vezes só nos reduzem à violência e à marginalidade, o que é um grande erro. Na verdade, é um grande erro proposital, um projeto de como querem que a população veja os lugares periféricos.
Manguinhos, na maioria das vezes que aparece no jornal, é só para relatar as nossas dificuldades. E aí parece que a gente é só isso, que ser morador de Manguinhos é só sofrer violência. Lógico que não estou ignorando que a gente sofre violência, mas tem outro aspecto que produz potência. Então, produzir as próprias narrativas disputa como a história do território vai se construindo e como as noções imagéticas sobre os próprios moradores se constituem para fora da favela.
5. Que Manguinhos você gostaria de ver no futuro?
Gostaria de ver um Manguinhos verde, cheio de árvores e com o rio Faria Timbó despoluído. Gostaria de ver espaços de lazer não abandonados, que fossem preservados. Gostaria de ver muitos empregos em Manguinhos também, que a maioria dos moradores tivesse acesso a coisas dignas.
Lazer é digno. Ter um espaço verde influencia no ar que a gente respira, e o meio ambiente influencia muito em como nos relacionamos com ele. Então, o Manguinhos do futuro que eu queria ver é um que nutrisse essa cultura ambiental de preservação e que, além disso, fosse referência para muitas coisas. Como já somos, mas precisamos avançar em vários aspectos.
6. Que mensagem você deixaria para as pessoas que vivem e constroem Manguinhos?
A mensagem que eu deixaria é que o que fazemos dentro da nossa casa influencia na maneira como nos relacionamos com o território como um todo. Acho que isso é uma provocação e um recado também: a maneira como cuidamos da nossa casa, como entendemos que ela nos pertence, essa noção de pertencimento tem que ir além da sua porta.
Preservar todo o ambiente em que você vive é muito importante, para além da sua própria casa. Ter esse senso de comunidade, a reivindicação de uma coleta de lixo que abarque as necessidades dos moradores, uma noção de não desperdiçar as coisas, que isso prevaleça, sobretudo. Acho que é isso.
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As lembranças de Isabella revelam um Manguinhos construído por contrastes: entre os churrascos familiares na laje e os momentos de medo durante operações policiais; entre a sensação de liberdade proporcionada pela vida comunitária e as violências que atravessam a experiência de quem cresce em uma favela.
Ao olhar para essas vivências, Isabella mostra que o território não apenas guarda suas memórias, mas também ajudou a formar sua identidade, sua consciência política e sua busca por justiça social. Mesmo não sendo mais moradora, ela continua reconhecendo Manguinhos como parte fundamental da pessoa que se tornou.
Sua fala também reivindica o reconhecimento dos conhecimentos produzidos dentro da favela. Para Isabella, ouvir os moradores não deve ser apenas uma etapa complementar das políticas públicas, mas o ponto de partida para qualquer ação que pretenda transformar o território.
Entre a valorização da solidariedade comunitária, a defesa de um Manguinhos mais verde e o chamado para que o cuidado ultrapasse as portas de cada casa, Isabella reforça que pertencimento também significa responsabilidade coletiva. Cuidar do lugar onde se vive, preservar sua memória e disputar as narrativas construídas sobre ele são formas de afirmar que Manguinhos é muito maior do que as violências pelas quais costuma ser representado.
