Vozes de Manguinhos

Vozes de Manguinhos #5: Jayme Cardoso

Comunicador popular e cria de Manguinhos, Jayme fala sobre memórias da infância, transformações urbanas e a importância da comunicação para valorizar a história, a cultura e as iniciativas do território.
15/07/2026 | 12h00
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As transformações de um território também podem ser percebidas pelas lembranças de quem cresceu acompanhando suas ruas, construções e paisagens mudarem ao longo do tempo.

Nesta edição do Vozes de Manguinhos, ouvimos Jayme Cardoso, de 22 anos, estudante de Relações Públicas, comunicador popular e cria de Manguinhos. Morador da Rua 9, onde sua família permanece até hoje, Jayme construiu sua relação com o território entre a escola, as brincadeiras de infância, a antiga estação de trem, a Biblioteca Parque e a convivência com uma vizinhança sempre presente.

Suas memórias também são atravessadas por acontecimentos que transformaram profundamente Manguinhos, como as enchentes que atingem as famílias, as intervenções do PAC e a elevação da estação ferroviária, realizada diante da casa onde cresceu.

Ao revisitar essas experiências, Jayme reflete sobre o papel da comunicação popular, a valorização da história local e o desejo de que Manguinhos seja reconhecido como um território de cultura, arte e produção comunitária.

A seguir, ele compartilha suas lembranças e fala sobre o Manguinhos que viveu, aquele que acompanha no presente e o futuro que deseja ajudar a construir.

1. Conte um pouco de você e da sua história em Manguinhos.

Me chamo Jayme Cardoso, cria de Manguinhos há 22 anos. Estudante de Relações Públicas e comunicador popular de Manguinhos.

Com certeza me marcaram muito as enchentes arrasadoras, a obra do PAC em relação a elevação da estação (pois moro em frente) e a construção da Biblioteca Parque que passei bons tempos lá.

2. Que lembranças, cenas ou sentimentos aparecem quando você pensa em Manguinhos?

Quando penso em Manguinhos lembro da minha infância porque tenho memórias bem confortáveis como, estudar no CEMPA e dos primeiros amigos de Manguinhos que fiz lá, de comprar doces e refri no bar do falecido China e de brincar com as outras crianças da Rua 9 que inclusive, é aonde minha familia mora até hoje. Além disso, ainda é muito nítido, atravessar a antiga estação de trem pra tomar vacina no posto de saúde e da vizinhança animada.

3. Pela sua vivência, o que em Manguinhos precisa ser mais reconhecido, cuidado ou valorizado?

Gostaria muito que a comunicação popular fosse mais valorizada, que as pessoas tivessem mais interesse em saber como funciona, como é importante e como podem contribuir para que funcione melhor. Mas acredito que já esteja ocorrendo uma transição de mentalidade da população, conforme o Jornal se mostra cada vez mais presente e trazendo pautas importantes.

4. Por que é importante que Manguinhos produza suas próprias narrativas?

Acho super interessante ver o Manguinhos Online atuando, porque é um território muito extenso e precisa dessa comunicação popular pra sabermos das notícias e informações com um olhar mais preciso e mais cuidadoso. É importante também para valorizar a história do nosso território, para os moradores conhecerem o passado da comunidade através de pessoas que conhecem de verdade Manguinhos.

5. Que Manguinhos você gostaria de ver no futuro?

É meu sonho, primeiramente, ver Manguinhos passando por uma grande transformação envolvendo os rios que nos cercam, para que não tenhamos mais enchentes que destroem lares todos os verões. Seguindo, gostaria de ver as pessoas de fora vendo Manguinhos como um polo de cultura e arte, sendo reconhecida internacionalmente pela companhia de ballet, por exemplo. E que sejamos mais uma referência em comunicação popular, caminho este que já está sendo traçado com bastante sucesso e esforço pelo Manguinhos Online.

6. Que mensagem você deixaria para as pessoas que vivem e constroem Manguinhos?

Deixo meu pedido que valorizem os projetos locais, que compartilhem bastante as publicações do Manguinhos Online, que é um jornal com curadoria muito profissional, para que tenham grande alcance e nos conheçam nossa favela pelo o olhar do morador. E lembrando, para sermos valorizados e respeitados temos que primeiros nos valorizar e respeitar o solo de onde viemos.

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As lembranças de Jayme percorrem diferentes momentos da história recente de Manguinhos. Da infância na Rua 9 às mudanças provocadas pelas obras do PAC, da antiga estação ferroviária à construção da Biblioteca Parque, sua trajetória pessoal também registra as transformações da paisagem e da vida comunitária.

Ao mesmo tempo, sua fala mostra que alguns problemas permanecem. As enchentes que marcaram sua experiência continuam ameaçando casas e interrompendo a rotina de muitas famílias, fazendo com que a recuperação dos rios e o enfrentamento das consequências das chuvas apareçam como condições fundamentais para o futuro do território.

É nesse encontro entre memória e transformação que Jayme situa a importância da comunicação popular. Para ele, comunicar Manguinhos a partir de dentro significa oferecer informações mais próximas da realidade dos moradores, preservar a história local e apresentar a favela para além das imagens construídas por quem não conhece seu cotidiano.

Ao defender a valorização dos projetos locais, da cultura e das iniciativas comunitárias, Jayme também chama os próprios moradores a participarem dessa construção. Compartilhar informações, fortalecer quem atua no território e reconhecer o valor do lugar de onde se vem são maneiras de ampliar o alcance das vozes de Manguinhos.

Sua mensagem final reforça que o reconhecimento externo também começa pelo pertencimento: para que o território seja valorizado e respeitado, é preciso que seus moradores reconheçam suas histórias, fortaleçam suas iniciativas e respeitem o solo onde suas trajetórias foram construídas.