Arquivo Preto – Capítulo 3: Abdias do Nascimento
Abdias do Nascimento foi um dos nomes mais importantes da história do movimento negro brasileiro. Nascido em Franca, no interior de São Paulo, em 1914, ele atravessou o século 20 atuando como escritor, dramaturgo, artista visual, professor, jornalista, político e militante pan-africanista. Morreu em 2011, aos 97 anos, deixando uma obra marcada pela defesa da população negra e pela crítica às estruturas do racismo no Brasil.
No terceiro capítulo do Arquivo Preto, o Manguinhos On-line destaca uma trajetória que uniu arte, política e memória. Abdias não tratava a cultura como enfeite. Para ele, teatro, literatura, pintura, jornalismo e atuação institucional eram formas de enfrentar o apagamento histórico da população negra.
Teatro Experimental do Negro mudou a cena brasileira
Em 1944, no Rio de Janeiro, Abdias do Nascimento fundou o Teatro Experimental do Negro, conhecido como TEN. O projeto nasceu com a proposta de valorizar a população negra e a cultura afro-brasileira por meio da arte e da educação. Também buscava criar uma nova estética teatral, rompendo com representações racistas e estereotipadas que limitavam artistas negros a papéis secundários ou pejorativos.
O TEN não era apenas um grupo de teatro. A iniciativa também oferecia cursos de alfabetização, cultura geral, teatro e interpretação. Segundo a Fundação Cultural Palmares, o corpo inicial de atores reunia operários, empregados domésticos, moradores de favelas e trabalhadores modestos, que passaram a ocupar o palco como protagonistas de suas próprias histórias.
A estreia do grupo aconteceu em 1945, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, com a peça O Imperador Jones, de Eugene O’Neill. De acordo com a Fundação Palmares, aquela foi a primeira vez em que pessoas negras pisaram no palco do Municipal como intérpretes e também como público.
Arte como denúncia e afirmação
A atuação de Abdias ajudou a mostrar que representação também é disputa por poder. Ao criar espaços para artistas negros, ele confrontou uma estrutura cultural que invisibilizava corpos, histórias e memórias negras.
Além do teatro, Abdias criou o projeto do Museu de Arte Negra e desenvolveu uma produção artística voltada ao legado africano e à denúncia do racismo. O Ipeafro destaca que suas pinturas circularam dentro e fora do Brasil e dialogavam com a valorização da herança cultural africana.
Ele também esteve ligado ao jornal Quilombo, fundado no Rio de Janeiro nos anos 1940, uma publicação importante para o debate racial, cultural e político da época.
Do teatro ao Congresso Nacional
A trajetória de Abdias também passou pela política institucional. Ele foi deputado federal pelo Rio de Janeiro entre 1983 e 1987 e senador pelo Rio entre 1991 e 1997, segundo registro do Senado Federal.
No Congresso, defendeu políticas de combate ao racismo, valorização da população negra, ações afirmativas e reconhecimento da contribuição africana para a formação do Brasil. Sua atuação política seguia a mesma linha de sua produção cultural: denunciar desigualdades e transformar a presença negra em pauta pública.
Exílio e pan-africanismo
Durante a ditadura militar, Abdias viveu fora do Brasil. Segundo o Itaú Cultural, ele permaneceu 13 anos em autoexílio, entre 1968 e 1981, principalmente nos Estados Unidos, com passagem pela Nigéria. Nesse período, trabalhou em universidades, fortaleceu sua produção artística e aprofundou o diálogo com o pan-africanismo.
O contato com movimentos negros internacionais ampliou sua reflexão sobre racismo, colonialismo, diáspora africana e identidade negra. Ao retornar ao Brasil, Abdias voltou com uma leitura ainda mais ampla da luta antirracista, conectando a realidade brasileira a processos históricos vividos por populações negras em outras partes do mundo.
A crítica ao mito da democracia racial
Uma das contribuições mais importantes de Abdias foi o enfrentamento à ideia de que o Brasil seria uma democracia racial. Em sua obra O genocídio do negro brasileiro: processo de um racismo mascarado, publicada em 1978, ele denunciou a violência contra a população negra e questionou a imagem de um país supostamente harmonioso nas relações raciais.
Essa crítica segue atual. Ao longo de sua obra, Abdias mostrou que o racismo brasileiro não se resume a agressões explícitas. Ele aparece também na desigualdade de renda, na violência do Estado, na exclusão educacional, na falta de representação, no apagamento cultural e na naturalização da pobreza negra.
Legado permanece vivo
Abdias do Nascimento transformou a forma como o Brasil pensa cultura, raça, representação e memória. Sua trajetória mostra que a luta antirracista não acontece em um único campo. Ela está no palco, na escola, no parlamento, na imprensa, nas artes, nos livros e nos territórios.
Ao recuperar sua história, o Arquivo Preto também afirma a importância de valorizar intelectuais, artistas e lideranças negras que ajudaram a construir caminhos de resistência.
Abdias ensinou que representar quem trabalha, quem mora na favela, quem cria, quem lembra e quem luta também é disputar o futuro. Sua vida permanece como um chamado: não basta reconhecer a presença negra na história. É preciso garantir que essa presença seja vista, ouvida e respeitada.
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