Vozes de Manguinhos

Vozes de Manguinhos #6 – Letícia Alves

Entre memórias, pertencimento e cultura, Letícia Alves fala sobre sua trajetória e os caminhos para preservar e fortalecer as histórias de Manguinhos.
16/08/2026 | 16h00
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Memória, cultura e pertencimento atravessam a trajetória de Letícia Alves. Nascida e criada na Vila Turismo, em Manguinhos, ela é estudante de Museologia na UNIRIO, pesquisadora, escritora e atua em diferentes iniciativas ligadas à preservação e à valorização das histórias e dos saberes do território.

Nesta edição do Vozes de Manguinhos, Letícia fala sobre sua relação com o lugar onde cresceu, as mudanças na forma como passou a compreender sua própria identidade e a importância de moradores e favelas participarem da construção das narrativas sobre suas histórias. Entre lembranças, afetos e experiências, ela nos convida a olhar para Manguinhos também a partir de sua memória, de sua cultura e dos conhecimentos produzidos por quem vive o território.

1. Conte um pouco de você e da sua história em Manguinhos.

Meu nome é Letícia Alves, tenho 28 anos e sou nascida e criada em Manguinhos, mais especificamente da Vila Turismo. Minha família materna veio de Natal, Rio Grande do Norte, e minha mãe Adélia chegou em Manguinhos aos 9 anos com minha avó Helena e seus 6 irmãos. Com o tempo minha avó e alguns dos meus tios voltaram pro RN, mas nós continuamos aqui.

Estou cursando Museologia na UNIRIO, sendo a primeira mulher da família a entrar na universidade, e no momento estou fazendo muitas coisas, e quase todas (senão todas), perpassam o território. 

Sou bolsista IC- Manguinhos da Fiocruz, um programa de Iniciação Científica da instituição voltada para Manguinhos. Sou orientada pela Dra. Liane, e junto dela e da equipe (que continha psicólogos, comunicadores, antropólogos, etnógrafos, e eu, graduanda em Museologia) trabalhamos na pesquisa de Modos de brincar e cuidar de crianças, na qual visava compreender como as brincadeiras podem influenciar no desenvolvimento psicomotor e social, que brincadeiras ainda se mantinha, quais saíram, como as telas está afetando o desenvolvimento e como as brincadeiras afetam as relações das crianças entre si, com os responsáveis e com o ambiente que estão inseridos. Nesta pesquisa trabalhei o conceito de divulgação científica alargada ao fazer uma exposição com os desenhos e fotos das crianças brincando, mostrando o desenvolvimento delas, as relações construídas e as visões dos pequenos sobre o trabalho realizado. Os responsáveis, os médicos e as crianças puderam ver o quanto é bom o ato de brincar.

Trabalho também no Ecomuseu de Manguinhos, que faz parte da Rede CCAP, como bolsista, para a construção de um acervo e exposição contando a relação da rede e do território. Pretendemos inaugurar a exposição ainda este ano, no final de setembro. 

Por fim, mas não menos importante, também sou bolsista de uma pesquisa sobre Saberes Tradicionais de Manguinhos e Maré, que está buscando entender o que é tradicional para esses territórios, que saberes devem ser preservados e valorizados. Nesses dois complexos encontramos, pescadores, quadrilheiros, erveiras, mestres de capoeira, babalorixá. Estamos na etapa de transcrição das entrevistas e o resultado deste trabalho deve ser divulgado ano que vem.

Bem, dá pra ver que sempre tô envolvida em algo kkkkkk, mas para além da carreira acadêmica, eu também sou escritora. Atualmente decidi oficialmente assinar pelo nome artístico de Letícia Alviéra (junção dos meus sobrenomes), já participei de uma coletânea de poesias, uma coletânea de contos e atualmente estou tentando vencer a procrastinação para terminar o meu primeiro romance que pretendo lançar no máximo ano que vem.

2. Que lembranças, cenas ou sentimentos aparecem quando você pensa em Manguinhos?

Desde pequena sou uma pessoa mais introvertida e medrosa, quando criança brincava mais com as crianças do meu beco e não saia muito dele, então no geral não conheço muitas pessoas do território e elas também não me conhecem. Sinto que posso passar a impressão de “metida”, mas sou apenas introvertida mesmo kkkkk, mas acho que essa ideia de “metida” combinaria com o meu eu adolescente. 

Minha relação com Manguinhos nem sempre foi boa, quando criança tive memórias boas apesar das memórias ruins de tiroteios intensos no qual demorei pra me acostumar (sendo que isso nem deveria ser algo normalizado, principalmente tão novo). Durante toda a adolescência tive a fase não querer ser associada a ideia de “favelada”, não gostava de funk, procurava não falar gírias e me vestir de forma que passasse a ideia de “favelada” pois achava que dessa forma eu conseguiria ser lida diferente por pessoas de fora… Aqueles papos besta de “meritocracia”, “não se deixou influenciar pelo ambiente que vive” e blá-blá-blá. Isso tudo caiu por terra pra mim quando com 19 anos, indo pro trabalho às 6h da manhã, e no trajeto que eu iria fazer pra ir pro ponto (ainda dentro da favela) um policial,  a no máximo 2 metros de distância, apontou um fuzil pra minha cabeça, de mira e dedo no gatilho. Ele não falou nada, mas estava visivelmente determinado, só tinha ele e eu na rua, fiquei em choque mas dei meia volta e fui pro ponto pelo caminho mais longo enquanto o xingava mentalmente por me fazer chegar atrasada no trabalho,  como qualquer CLT faria. Quando cheguei em casa, refleti sobre, e aí caiu a ficha de vez: estava deixando de respeitar quem sou e o meu território para não ser colocada numa caixinha “negativa”, e no final nada disso importava pois sempre seria lida dessa forma. A partir daí passei a olhar com mais afeto para Manguinhos, para os moradores e para mim. Entendi que existem diversas formas de ser favelada e cria, e que nenhuma delas é essencialmente ruim. Pra mim esse dia marcou o “Letícia, criada em Manguinhos” para hoje que considero “Letícia, cria de Manguinhos”.

Finalizando com memórias não violentas, tenho (agora que crescida) boas memórias das minhas vizinhas olhando a mim e ao meu irmão para certificar de que estávamos bem e contando pra minha mãe caso nós fizéssemos besteira. As festas juninas na rua do 20. Uma senhorinha (que até hoje não sei o nome) me contando sua história de vida triste e resiliente pra mim na rua do mais completo nada. Tia Nicinha implicando com todo mundo que passava (que Deus a tenha). Eu indo perturbar minha avó (que Deus a tenha também) que fofocava animadamente com as vizinhas no beco. A feira de domingo enorme que tinha na rua do 20 e na estrada de Manguinhos. Acompanhando minha mãe nas aulas da EJA que tinha na Rede CCAP. A diversidade de sons e músicas em cada ponto da favela (e como elas contam o clima do morador e até do território). E por último uma memória saudosista de cinéfila que até hoje não superou o fim da locadora que tinha na Estrada e que até hoje se lembra do cheiro e de andar atrás dos filmes que queria ver.

3. Pela sua vivência, o que em Manguinhos precisa ser mais reconhecido, cuidado ou valorizado?

Com essa pesquisa de Saberes Tradicionais que faço parte, ficou mais evidente para mim o quanto perdemos pessoas e práticas culturais importantes de Manguinhos. É normal, principalmente em favelas que são vivas e estão em constante mudança, que se perca, surjam novas, ou se questione o que é tradicional desses territórios. Em Manguinhos não conseguimos mais achar pessoas que foram benzedeiras, parteiras, rezadeiras e erveiras, que são práticas tradicionais muito ligadas ao cuidado comunitário e que são figuras importantes em muitas favelas, infelizmente na pesquisa vimos que essa falta não é exclusiva de Manguinhos e perpassa por diversos fatores.

Meu desejo é que Manguinhos vire uma efervescência cultural. Quero que nós venhamos valorizar os nossos mais velhos, as pessoas que as profissões estão se perdendo, e que reflitamos sobre resgatar e iniciar novas práticas culturais. Acho que Manguinhos só tem a prosperar em todos os sentidos se abraçar e valorizar essa ideia de ponto cultural.

4. Como a sua vivência em Manguinhos influencia a sua atuação?

Já pensei em muitas profissões até escolher de vez a Museologia, sempre pensei em profissões de cuidado social, até que entendi que existem diversas formas de cuidados e que Museologia poderia ser uma forma de cuidado meu com o meu território. Manguinhos é o principal motivo de eu acreditar na Museologia social, de trazer a luz e valorizar memórias e narrativas de sujeitos e povos menosprezados historicamente, e de que museus podem e devem ser espaços diversos, inclusivos e políticos. As favelas devem ter um museu pra ter autonomia em suas histórias, mas também conseguir acessar e se ver cada vez mais como protagonistas nesses espaços culturais tradicionais (centros de memórias, museus e etc)

Museus são ferramentas de poder, eles são lugares de memória e de esquecimento, de vitória e de derrotas de narrativas, e é importante que as favelas e periferias participem, questionem e se façam presente nesses espaços.

Como Manguinhense e futura Museóloga, fico feliz de valorizar a cultura, a memória e preservar objetos e histórias para as futuras gerações, e que pela minha origem favelada, sei que serei uma profissional muito mais sensível, empática e comprometida em valorizar, histórias,  pessoas e lugares constantemente inferiorizados.

5. Que Manguinhos você gostaria de ver no futuro?

Desculpa, acho que já falei o meu maior desejo pro futuro do território na pergunta 3 kkkkkkk.

6. Que mensagem você deixaria para as pessoas que vivem e constroem Manguinhos?

Acho que torço para que o Complexo de Manguinhos se veja realmente como um complexo e interaja cada vez mais entre si e não somente como Vila Turismo, Mandela, Varginha e etc. Só vamos conseguir ampliar nossa força e luta quando nos reconhecermos como unidade.

Também desejo que a gente seja cada vez mais empático para além da solidariedade do sofrimento (da limpeza das enchentes, das perdas em tiroteios, remoções de casas, das doenças), quero que sempre tenha conversas entre vizinhos, crianças brincando tranquilas nas ruas, e que festejemos juntos.

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Ao falar sobre o futuro, Letícia aponta para um Manguinhos que reconheça e preserve suas memórias sem deixar de construir novas histórias. Um território que valorize seus mais velhos, seus saberes e suas práticas culturais, mas que também fortaleça os vínculos entre as diferentes comunidades que formam o Complexo de Manguinhos.

Seu desejo é que essa união não apareça somente diante das dificuldades. Que Manguinhos também se encontre na vida cotidiana: nas conversas entre vizinhos, nas crianças brincando nas ruas, na cultura, nas celebrações e nos momentos compartilhados.

No fim, fica uma provocação que atravessa toda a entrevista: reconhecer Manguinhos como uma história construída por muitas histórias, e fortalecer os caminhos para que quem vive o território também possa preservar, contar e disputar a memória sobre ele.